Durante a EAA AirVenture Oshkosh 2026, o Prof. Marcelo Ribeiro teve a oportunidade de conhecer de perto o HondaJet, desenvolvido pela Honda Aircraft Company. A visita registrada no vídeo reúne um walkaround, uma apresentação do interior, uma passagem pelo cockpit e uma conversa com um profissional envolvido no desenvolvimento da aeronave. Sem a transcrição dessa entrevista, não é possível reproduzir suas declarações específicas; a história técnica do projeto, porém, ajuda a compreender a importância do que foi apresentado.
O HondaJet chama atenção pela silhueta imediatamente reconhecível: seus dois motores não estão fixados na traseira da fuselagem, como acontece com muitos jatos executivos leves, mas posicionados acima das asas. Essa escolha visualmente ousada não foi feita apenas para diferenciar o avião. Ela está no centro de um conjunto de soluções que procura equilibrar velocidade, eficiência, conforto e aproveitamento do espaço interno.
A trajetória do HondaJet está ligada ao engenheiro Michimasa Fujino. Segundo a história publicada pela própria Honda Aircraft Company, foi em 1997 que Fujino esboçou a configuração com motores sobre as asas no verso de uma folha de calendário. A ideia passou por estudos aerodinâmicos e ensaios antes de se tornar uma aeronave real.
O primeiro HondaJet experimental voou em dezembro de 2003, em Greensboro, na Carolina do Norte. Dois anos depois, em 2005, o avião fez sua estreia pública justamente na EAA AirVenture Oshkosh. A ligação entre o modelo e o evento é, portanto, muito anterior à visita de 2026: Oshkosh foi um dos palcos decisivos para mostrar o projeto ao público e demonstrar que aquela configuração incomum tinha potencial comercial.
A Honda Aircraft Company foi estabelecida em 2006, e a certificação de tipo do HA-420 pela FAA chegou em dezembro de 2015, após um longo programa de desenvolvimento e testes.
A solução recebe o nome Over-The-Wing Engine Mount, ou OTWEM. Em um jato executivo convencional, instalar os motores na parte traseira da fuselagem pode ocupar espaço estrutural e influenciar o ruído percebido pelos passageiros. No HondaJet, o posicionamento sobre as asas libera a região posterior da fuselagem e contribui para ampliar o volume útil de cabine e bagagem.
O aspecto mais surpreendente está na aerodinâmica. A posição dos motores não foi escolhida aleatoriamente: a Honda desenvolveu a configuração para administrar a interação entre o escoamento sobre a asa e os suportes dos motores, reduzindo o arrasto de interferência em condições específicas. A empresa destaca que essa solução também contribui para a eficiência e para uma cabine mais silenciosa.
Isso não significa que instalar motores sobre asas seja automaticamente melhor em qualquer aeronave. O resultado depende do desenho completo, das velocidades de operação e da integração entre asa, naceles e estrutura. No HondaJet, o diferencial foi transformar uma configuração pouco usual em uma solução aerodinâmica validada.
A busca por eficiência não termina nos motores. O HondaJet utiliza perfis de asa e formato de nariz desenvolvidos para favorecer o chamado fluxo laminar natural. Em termos simples, trata-se de preservar por mais tempo um escoamento ordenado sobre determinadas superfícies, reduzindo a parcela de resistência associada ao atrito aerodinâmico.
Para alcançar esse efeito, o acabamento e a geometria das superfícies são importantes. Um artigo técnico da Honda descreve a asa metálica com revestimento usinado de maneira a obter elevada suavidade superficial. Já a fuselagem emprega materiais compostos, permitindo combinar resistência estrutural, menor massa e liberdade de projeto.
Essas decisões se reforçam mutuamente. Menos arrasto e menor peso ajudam a melhorar desempenho e consumo, enquanto a arquitetura do avião busca oferecer uma cabine generosa para a categoria.
A motorização é outro capítulo interessante dessa história. O HondaJet de produção utiliza dois turbofans GE Honda HF120, fruto de uma parceria entre a Honda e a General Electric. A experiência de desenvolvimento do motor experimental HF118 contribuiu para a evolução até o HF120, que recebeu certificação da FAA em 2013.
Em uma aeronave executiva leve, a eficiência dos motores precisa ser considerada em conjunto com a aerodinâmica e o peso da estrutura. A escolha dos propulsores, sua instalação e a gestão de desempenho influenciam diretamente o alcance, a velocidade e os custos operacionais.
No vídeo, Marcelo entra no HondaJet e apresenta a cabine de passageiros. Essa etapa ajuda a entender por que o posicionamento dos motores importa para além da aparência externa. Ao afastar os propulsores da fuselagem traseira, o projeto favorece o aproveitamento do espaço destinado aos ocupantes e às bagagens.
O conforto também depende de aspectos menos visíveis, como tratamento acústico, ergonomia, disposição dos assentos e iluminação. Nas evoluções mais recentes da família, a Honda deu atenção especial a acabamentos, opções de interior e redução de ruído. A proposta é oferecer uma experiência de viagem executiva em uma aeronave de dimensões compactas.
A visita também inclui o cockpit, uma das áreas em que a modernização da aviação executiva fica mais evidente. O HondaJet utiliza uma suíte de aviônicos baseada no Garmin G3000, customizada para a aeronave, com grandes telas integradas e interfaces sensíveis ao toque.
Em vez de concentrar a operação em instrumentos analógicos independentes, a arquitetura reúne informações de voo, navegação e sistemas de maneira integrada. Isso não elimina a necessidade de treinamento ou gerenciamento cuidadoso da aeronave; a tecnologia procura oferecer ao piloto informações mais organizadas e recursos que auxiliam a consciência situacional.
O HondaJet Elite II é certificado para operação com piloto único, desde que observados os requisitos aplicáveis de habilitação e operação. Esse aspecto ajuda a explicar o interesse do mercado por aeronaves executivas leves que conciliem tecnologia, desempenho e flexibilidade.
A história comercial do HondaJet não parou com a certificação de 2015. Em 2018, a Honda apresentou o HondaJet Elite, com melhorias de alcance, aviônicos e redução de ruído. Em 2021, chegou o Elite S, que trouxe alterações de peso máximo de decolagem e recursos adicionais de aviônicos. Em 2022, a fabricante anunciou o Elite II, com novas evoluções de desempenho, conforto e sistemas.
Para o Elite II, a Honda divulgou alcance de até 1.547 milhas náuticas, aproximadamente 2.865 quilômetros, sob condições especificadas de desempenho. Esse número não deve ser confundido com a autonomia de todas as versões anteriores nem com a distância garantida em qualquer missão real, que varia com carga, vento, reservas e condições operacionais.
As sucessivas versões mostram como uma arquitetura original pode continuar recebendo melhorias sem abandonar as características que tornaram o modelo conhecido.
A presença do HondaJet em Oshkosh 2026 tem um significado especial. A própria Honda relata que a apresentação pública do protótipo no AirVenture de 2005 foi decisiva para demonstrar o interesse do público e reforçar a viabilidade comercial do programa. O evento que ajudou a revelar a aeronave ao mundo tornou-se, anos depois, cenário para apresentar sua maturidade e evolução.
Outro detalhe interessante é que o HondaJet nasceu dentro de uma companhia reconhecida principalmente por automóveis e motocicletas. Entrar na aviação certificada exigiu criar competências específicas em estruturas, aerodinâmica, motores, ensaios, produção e suporte ao cliente. A certificação do HA-420 foi, nesse sentido, o resultado de um projeto de longo prazo, não de uma adaptação simples da experiência automotiva.
A visita do Prof. Marcelo Ribeiro permite observar o HondaJet por diferentes perspectivas: o desenho externo, a cabine, o ambiente operacional e o olhar de alguém ligado ao desenvolvimento do projeto. Com a pesquisa histórica e técnica, essas imagens ganham um significado maior.
O HondaJet demonstra que inovação aeronáutica nem sempre significa criar uma aeronave maior ou mais potente. Às vezes, a transformação está em reconsiderar uma decisão básica de arquitetura, como a posição dos motores, e fazer com que aerodinâmica, estrutura, propulsão e conforto trabalhem de forma integrada.
Da primeira ideia esboçada em 1997 à estreia em Oshkosh, da certificação em 2015 às versões mais recentes, o HondaJet se tornou um exemplo de como persistência em engenharia pode transformar uma proposta incomum em uma aeronave reconhecida internacionalmente. E é justamente isso que torna tão interessante conhecê-lo por fora, por dentro e pelo ponto de vista de quem participa de sua evolução.