POR DENTRO DA INPAER: CONHEÇA A FABRICA E O INCRÍVEL COLT

Uma fábrica brasileira que respira aviação

No Frequência Livre, o Prof. Marcelo Ribeiro foi até o Aeroporto Campo dos Amarais, em Campinas (SP), para conhecer de perto a INPAER e acompanhar algo que normalmente fica longe dos olhos de quem vê uma aeronave pronta no pátio: o processo de fabricação.

A visita percorre a linha de montagem, os detalhes estruturais, sistemas, comandos, instalações elétricas, aviônicos e o setor de pós-venda. No centro de tudo está o Colt 100, aeronave leve esportiva que vem ganhando espaço especialmente em escolas de aviação por combinar simplicidade operacional, desempenho e uma proposta voltada também à instrução.

A INPAER carrega mais de duas décadas de experiência na fabricação de aeronaves leves. Antes do Colt, projetos como o Conquest ajudaram a construir a história da fabricante. Em 2023, a empresa recebeu da ANAC a autorização para produção e operação do Colt 100 no Brasil, abrindo uma nova etapa para a marca e para a presença da aeronave no mercado nacional.

Colt 100: simplicidade pensada para voar e ensinar

O Colt é uma aeronave de dois lugares da categoria LSA (Light Sport Aircraft), ou Aeronave Leve Esportiva. Sua motorização padrão utiliza o Rotax 912 ULS, de 100 hp, um conjunto bastante conhecido na aviação leve.

A filosofia do projeto aparece rapidamente durante a visita: criar uma aeronave dócil, amigável, simples de operar e com custos compatíveis com missões como instrução e voo recreativo. Isso ajuda a explicar o interesse de escolas e aeroclubes, onde facilidade de operação, disponibilidade e custo por hora são fatores importantes.

Segundo dados divulgados pela própria INPAER, o Colt pode atingir velocidade máxima de cruzeiro de 120 nós TAS, enquanto o cruzeiro a 75% de potência fica em torno de 110 nós TAS. A velocidade de estol sem flaps é informada em 44 nós CAS, e a capacidade total dos tanques é de 120 litros.

Mais do que números, porém, a experiência em voo mostrada no vídeo ajuda a traduzir a proposta do avião. Nos comandos, Marcelo destaca a sensibilidade da aeronave e a resposta precisa, características que tornam a pilotagem interessante tanto para quem está em formação quanto para quem já possui experiência.

Por baixo da pele: como o Colt é construído

Uma das partes mais interessantes da visita acontece antes mesmo de o avião estar pronto. Com a estrutura exposta, é possível observar como diferentes soluções trabalham juntas para formar a célula da aeronave.

A fuselagem utiliza alumínio aeronáutico e construção estrutural rebitada. Na região central existe ainda uma célula de segurança em aço cromo-molibdênio, solução que lembra o conceito de uma gaiola de proteção. Esse conjunto reforça áreas importantes próximas aos ocupantes, às raízes das asas e ao trem de pouso.

A fabricante informa que utiliza alumínio aeronáutico ALCLAD 2024 com rebites sólidos e componentes em aço cromo-molibdênio. Partes como carenagem do motor, pontas das asas, polainas e portas utilizam materiais compósitos para favorecer acabamento e aerodinâmica.

Na linha de montagem, outro aspecto chama atenção: repetibilidade. Peças são projetadas pela engenharia e produzidas com auxílio de processos CNC e gabaritos, permitindo que furos, dobras, reforços e junções ocupem posições previamente determinadas. É justamente nesse nível de detalhe que a fabricação aeronáutica se diferencia: um avião pode parecer simples externamente, mas sua segurança nasce da soma de centenas de decisões de engenharia e montagem.

Comandos, sistemas e a lógica por trás de cada detalhe

O vídeo também abre espaço para mostrar componentes que normalmente ficam escondidos depois que a aeronave é finalizada. Ailerons e leme utilizam cabos de comando, enquanto o profundor é comandado por um sistema de varão. Chicotes elétricos, seletora de combustível, comandos do motor, batentes e conexões aparecem ainda durante a montagem.

Esses detalhes ajudam a entender um princípio essencial da engenharia aeronáutica: sistemas não são simplesmente instalados para funcionar em condições normais. Eles também precisam considerar o que acontece quando alguma coisa deixa de funcionar como deveria.

Um exemplo apresentado durante a visita está no comando de potência do Rotax. Em determinada condição de falha do cabo de aceleração, a lógica do sistema favorece a manutenção de potência em vez de simplesmente levar o motor à marcha lenta. O piloto passa a administrar a situação por outros meios previstos para a operação. É uma pequena demonstração de como a aviação trabalha com camadas de segurança e possibilidades de contingência.

Do painel tradicional ao glass cockpit

Se a estrutura mostra a robustez do Colt, o painel revela outra face do projeto. A aeronave pode receber diferentes configurações de aviônicos, permitindo adequar o equipamento à missão e ao perfil do operador.

Durante a visita são mostradas versões que combinam Garmin G3X, instrumentos analógicos de backup e piloto automático, além de uma configuração mais completa com duas telas G3X, GTN 650, Garmin G5 de backup e piloto automático de três eixos.

A modernização dos painéis tem impacto direto no treinamento. Para uma escola de aviação, colocar o aluno em contato com navegação integrada, telas digitais e automação desde as fases iniciais pode aproximar a formação do ambiente tecnológico encontrado em aeronaves mais avançadas.

Ao mesmo tempo, tecnologia não elimina os limites operacionais da aeronave. Ter uma configuração preparada para operações por instrumentos não significa que uma aeronave leve esteja apta a atravessar qualquer condição meteorológica. Equipamento, certificação, treinamento do piloto e limitações da aeronave precisam sempre ser considerados em conjunto.

120 litros de combustível e uma operação pensada para ser simples

No voo realizado durante a visita, a equipe da INPAER apresenta também algumas particularidades da operação. O Colt possui 60 litros de combustível em cada asa, totalizando 120 litros.

A proposta é manter a operação direta e previsível. A alimentação de combustível, os procedimentos de partida e o gerenciamento dos sistemas foram concebidos dentro dessa filosofia de simplicidade, algo especialmente relevante em uma aeronave destinada à formação.

Para escolas, isso vai além de conforto. Uma aeronave de instrução precisa suportar alta frequência de utilização, ciclos repetidos de pousos e decolagens e diferentes níveis de experiência nos comandos. Robustez, facilidade de manutenção e previsibilidade operacional passam a ser tão importantes quanto velocidade ou aparência.

A fábrica não termina quando o avião é entregue

Outro ponto mostrado no vídeo é o hangar dedicado à manutenção e ao pós-venda. A lógica é simples: fabricar e vender uma aeronave é apenas parte da relação com o operador.

Disponibilidade é especialmente importante para escolas de aviação. Uma aeronave parada significa aulas canceladas, horas não voadas e impacto direto na formação dos alunos. Por isso, documentação técnica, manutenção programada, suporte e fornecimento de soluções ao longo da vida útil fazem parte do ecossistema de um fabricante aeronáutico.

A própria INPAER mantém publicações técnicas, manuais e boletins de serviço para o Colt, reforçando que o acompanhamento da aeronave continua depois que ela deixa a linha de produção.

E o futuro? A INPAER já olha para uma aeronave maior

A visita ainda reserva uma prévia do que vem pela frente. No vídeo, a equipe apresenta um novo projeto de quatro lugares em desenvolvimento pela fabricante, ampliando a proposta da INPAER para missões que exigem mais espaço, capacidade e desempenho.

A apresentação mostra como uma fabricante nacional pode evoluir a partir da experiência acumulada com aeronaves leves: novas configurações, mais capacidade e missões diferentes, sem abandonar a busca por soluções adaptadas à realidade da aviação brasileira.

Como o projeto ainda está em evolução, características e especificações podem mudar até sua configuração definitiva. É justamente isso que torna o registro interessante: ele captura um momento em que uma nova aeronave ainda está deixando de ser projeto para se tornar produto.

Muito mais do que um “aviãozinho”

Talvez a principal conclusão da visita à INPAER seja perceber o quanto existe por trás de uma aeronave leve.

Quando o Colt está pronto, pintado e estacionado no pátio, é fácil enxergar apenas um avião compacto de dois lugares. Na fábrica, a perspectiva muda. Cada rebite, reforço, cabo, conexão elétrica, componente do painel e ponto de fixação faz parte de um sistema pensado para funcionar em conjunto.

É essa atenção aos detalhes que transforma chapas, tubos, cabos e equipamentos em uma aeronave.

No episódio completo do Frequência Livre, o Prof. Marcelo Ribeiro percorre a fábrica da INPAER, conversa com quem participa diretamente do projeto, conhece diferentes configurações do Colt e ainda experimenta a aeronave em voo. Uma oportunidade de conhecer não apenas uma máquina, mas parte da engenharia e da indústria aeronáutica brasileira que existe por trás dela.